Por Fernando Masini

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Cena de “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?”, filme de Abbas Kiarostami
Foto: Divulgação

Pesquisadora conta sua experiência no Irã para escrever sobre a produção cinematográfica do país

As produções iranianas têm cada vez maior espaço nas salas de exibição ocidentais, seja dentro de festivais e retrospectivas especiais ou lançadas esporadicamente em circuito comercial como alternativa das distribuidoras. Filmes dirigidos por Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi chegam às telas nacionais com grande alarde da crítica especializada e certo interesse do público. O que se via de início com olhos curiosos passou a ser examinado com maior afinco.

A fim de estender a discussão além da análise estética, Alessandra Meleiro, doutora em cinema e políticas culturais pela USP, resolveu passar três meses e meio no Irã para entender como funcionam o sistema e as políticas culturais controladas pelo governo. O resultado desse trabalho de campo é o livro “O Novo Cinema Iraniano: Arte e Intervenção Social”, lançado pela editora Escrituras. Grande parte da obra busca destrinchar a forma como ocorre a intervenção estatal na indústria cinematográfica iraniana e apontar os meios de resistência contra a força da censura.

“Se a gente pegar as primeiras regulamentações da censura que vieram depois da Revolução Islâmica, em 1980, até o momento atual, mudou-se pouca coisa. Saíram ou foram acrescentadas algumas normas, mas continua sendo uma censura pesada”, diz Alessandra. Ao falar das etapas de fiscalização e ingerência do governo durante a produção de um filme, a autora destaca que “se o diretor quiser financiamento do Estado ou infra-estrutura técnica estatal ele vai ter que necessariamente submeter o roteiro dele para aprovação”.

Houve uma significativa mudança no cinema iraniano com a revolução liderada pelo aiatolá Khomeini, em 1979. Mais de 180 salas foram fechadas e as produções estrangeiras perderam espaço de exibição nas salas remanescentes. “Uma das primeiras intervenções do Khomeini, quando voltou do exílio, foi queimar as películas estrangeiras. A população, com esse fervor revolucionário, resolveu incendiar as salas de cinema que tinham nomes que se referiam aos americanos”, conta Alessandra, na entrevista abaixo.

Nos últimos anos, apesar do problema de carência de salas, o número de filmes produzidos no Irã chega a 70 por ano, o que o coloca entre os 12 países que mais produzem filmes no mundo. O que nós temos a oportunidade de conferir por aqui, normalmente chegam os “filmes de arte”, representa apenas 20% do total produzido. Sobre os outros 80% restantes, Alessandra diz que são “filmes de entretenimento, com estética muito parecida com os filmes de Hollywood: comédias, filmes de ação, filmes sobre a guerra, com temáticas locais mas com estética americana”.

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Como aconteceu a sua viagem ao Irã?

Alessandra Meleiro: Basicamente eu fiquei em Teerã, por três meses e meio, no final de 2004. Fui a convite da embaixada do Brasil, já que eles têm muito interesse em fomentar a cultura e a cinematografia brasileira no exterior. Na verdade, um ano antes da viagem, eu já estava escrevendo sobre o tema, que era uma pesquisa de doutorado que eu estava fazendo na ECA (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).

Mas eu senti, depois de um ano de pesquisa, que faltava material, quase não existem livros em português sobre o assunto. A pouca bibliografia que existia em inglês e francês eu achava que não esgotava as dúvidas que eu tinha, aí eu percebi que era necessário mesmo fazer essa viagem de campo, o que foi maravilhoso para a pesquisa. Tudo o que eu havia escrito foi jogado no lixo.
Você contou com a ajuda de uma equipe no Irã?

Meleiro: Eu tive o suporte de uma pessoa que trabalhava como adido cultural da embaixada, foi a pessoa que me acompanhou nas entrevistas com quem não falava inglês. O pessoal do governo iraniano e dos órgãos públicos encarregados pela área de cinema, os diretores e os produtores dominam bem os idiomas inglês e francês. Eu acabei fazendo muitos contatos diretamente e utilizando algumas vezes uma tradutora. Consegui também fazer contato com um estudante da Universidade de Teerã, o Amir, que acabou sendo meu companheiro durante toda a viagem e foi meu interlocutor com o código local.
Você assistiu a algum filme nas salas de cinema do Irã? Como foi a experiência?

Meleiro: Eu vi sim. O que passa lá é só o que o país produz, você não vê produções estrangeiras sendo projetadas nas salas de cinema do Irã. Sobre o que o país produz, são 20% de filmes autorais que chegam nos festivais de cinema do Ocidente e outros 80% de filmes de entretenimento, com estética muito parecida com os filmes de Hollywood: comédias, filmes de ação, filmes sobre a guerra, com temáticas locais mas com estética americana.

E há também influência do cinema asiático de Bollywood, algumas comédias musicais. Com relação ao público, é interessante porque as pessoas reagem, participam junto, gritam, dão risadas, comentam em voz alta, ou seja, é uma experiência de recepção totalmente diferente da que nós temos aqui. Lá é muito mais participativo.
É um público mais jovem?

Meleiro: Os jovens freqüentam muito os cinemas, é uma realidade. Enquanto a geração das pessoas com mais de 40 ou 50 anos consumia muito literatura e poesia, essa nova geração é a do audiovisual, que consome muito VCD (tecnologia que permite executar vídeos através de CD de gravação), você vê os filmes piratas sendo comercializados nas ruas e também do mercado negro. Embora tenham poucas salas -são 300 em todo o país-, os jovens vão muito às sessões.
Por que você fez uma opção no livro por não contar muito sua experiência pessoal no país?

Meleiro: Uma das razões é porque eu achei que esse relato daria um outro livro. Eu estava tão focada em querer entender o discurso oficial que eu achei que teria de mudar demais a linguagem, ter de romantizar. Acho que o resultado do livro está muito próximo de um jornalismo investigativo do que propriamente de uma linguagem acadêmica. Eu acho que esses relatos em primeira pessoa dariam mais um romance, um ensaio, o que fugia um pouco da proposta. A origem disso tudo foi um estudo acadêmico.
De que forma ocorre a intervenção do Estado na produção cinematográfica? A censura aplicada às diversas etapas de produção de um filme no Irã parece ser uma questão primordial estudada no seu livro.

Meleiro: Essas etapas estão bem detalhadas num dos capítulos do livro. Se o diretor e produtor -em geral trata-se da mesma pessoa no Irã- quiser financiamento do Estado ou infra-estrutura técnica estatal ele vai ter que necessariamente submeter o roteiro dele para aprovação. Se ele quiser buscar recursos financeiros fora, ele não precisa seguir esses caminhos.

No primeiro caso, o diretor tem que apresentar uma série de documentos sobre idoneidade do produtor, filmografia etc. além do roteiro escrito. Esse material vai para Farabi Cinema Foundation, que é o órgão estatal encarregado de avaliar todo o processo e que está ligado ao MCOI (Ministério da Cultura e Orientação Islâmica). É legal fazer uma distinção: quando se fala em televisão, existe uma outra estrutura hierárquica que responde diretamente aos aiatolás, aos líderes religiosos.

No caso do Ministério da Cultura, ele responde diretamente ao presidente. Portanto, a produção é dissociada entre o que é produzido para TV e o que é produzido para cinema. Não tem o menor diálogo entre essas duas partes. Se o roteiro conseguiu ser aprovado, iniciam-se as filmagens. Depois de filmar, o produtor deve submeter de novo o copião para aprovação, depois o primeiro corte até chegar à última versão do filme.

Isso implica que não necessariamente o filme que começou a ser feito vai ser o mesmo a ser finalizado. Se o tipo de intervenção for branda, o cara vai no máximo refilmar ou cortar algumas cenas. Se acontecerem intervenções mais pesadas, o filme é impedido de ser exibido dentro do país, ou seja, os recursos empregados morrem na praia.
Há um dado muito sintomático publicado no livro que mostra a realidade da censura após a Revolução Islâmica de 1979: de mais de 2 mil filmes examinados pelos órgãos responsáveis, apenas 252 conseguiram permissão para serem exibidos. A censura continua atuante hoje em dia?

Meleiro: Se a gente pegar as primeiras regulamentações da censura que vieram depois da Revolução Islâmica, em 1980, até o momento atual, mudou-se pouca coisa. Saíram ou foram acrescentadas algumas normas, mas continua sendo uma censura pesada. É claro que as formas de interpretação disso mudam, porque há muitas questões subjetivas envolvidas. O que é uma forma inadequada de uma mulher vestir o hejab (lenço que cobre a cabeça e o peito das mulheres iranianas) todo mundo sabe, agora avaliar um diálogo que respeite a moral islâmica já é uma coisa mais vaga.
A própria população iraniana muitas vezes não aceita certas ousadias de filmes que tocam em assuntos delicados para a moral islâmica.

Meleiro: Teve até uma pesquisa de uma revista especializada em cinema do Irã junto aos espectadores em que se levantou isso: que muito dessa temática abordada por esse cinema que chega ao Ocidente denigre a imagem do país, portanto prejudicaria o que a população gostaria de projetar externamente. Na verdade, esse é um discurso do Estado, não só do Estado iraniano como de outros Estados autoritários.
Uma das saídas recorrentes para driblar a censura é trabalhar com metáforas no cinema. Isso acaba sendo incorporado como uma forma própria de se fazer cinema no Irã?

Meleiro: Essa questão das metáforas e das alegorias que a gente vê muito no cinema até a metade da década de 90 diz respeito aos filmes produzidos por um órgão do governo que chama Instituto para o Desenvolvimento Intelectual da Criança e do Adolescente (conhecido como Kanun), ou seja, um órgão voltado para a produção de filmes de e para crianças. O que eles queriam com isso?

Eles chamavam um grupo de diretores e necessariamente no script teria que ter crianças como protagonistas. Eles estavam já pensando na formação da nova geração, quer dizer, os ideais da Revolução Islâmica deveriam estar lá na tela para que esses jovens já crescessem imersos nessa cultura. Em parte, as metáforas que aparecem em filmes ligados a temáticas idílicas e ao universo infantil vêm desse modo de produção. Em parte também pelas restrições citadas, ou seja, se eu não posso falar diretamente o que eu penso da sociedade, eu vou criar maneiras de falar sem que meu filme seja banido.
Uma outra alternativa que se apresenta recentemente é a questão dos co-financiamentos. Não haveria uma influência direta no conteúdo de filmes produzidos com dinheiro de fora?

Meleiro: Existe uma diferença entre co-financiamento e co-produção. Na co-produção, o produtor estrangeiro, além de entrar com o financiamento, ele entra com equipe técnica e com intervenções na produção. No caso do Irã, o que mais acontece são co-financiamentos, ou seja, a produtora estrangeira (como a MK2 da França) entra só com o orçamento e viabiliza a produção para o diretor, assim ele tem a garantia de que o filme dele será projetado em outro país e isso implica em autonomia ao diretor. É a melhor situação para qualquer diretor iraniano trabalhar.

O filme “O Círculo” (dirigido por Jafar Panahi) é um exemplo. Foi produzido com financiamento externo, mas filmado dentro do Irã. Isso permitiu que fossem mostradas de uma maneira escancarada imagens de prostituição, aborto, de todas aquelas mulheres que estavam na periferia da cidade, o que não seria possível fazer com a estrutura antiga de produção.
Eu gostaria que você pontuasse algumas diferenças entre o cinema na época da monarquia do xá Reza Pahlevi e de depois do surgimento do regime islâmico liderado pelo aiatolá Khomeini.

Meleiro: A produção era muito pouco substancial, tanto quantitativamente quanto qualitativamente, porque o xá estava abrindo as pernas para o Ocidente. Quase todas as salas de cinema do Irã estavam dominadas por cinema americano, inclusive todas tinham nomes de cidades americanas. Tanto é que uma das primeiras intervenções do Khomeini, quando voltou do exílio, foi queimar as películas estrangeiras. A população, com esse fervor revolucionário, resolveu incendiar as salas de cinema que tinham nomes que se referiam aos americanos, como California, por exemplo.

Por isso, hoje em dia, o Irã tem apenas 300 salas de cinema, antes havia muito mais, embora não existisse produção de filmes nacionais. Os poucos filmes que se faziam na época do xá abordavam questões da monarquia, aspectos cotidianos do reinado, eram coisas pouco interessantes. No começo da década de 70, Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf já produziam na época.