relatos-selvagens-900x586.jpgRelatos Selvagens

Precisamos falar sobre isso. Ainda mais depois de vermos mais uma vez o cinema argentino indicado ao Oscar, dessa vez com Relatos Selvagens, e a gente fora da categoria de Melhor Filme Estrangeiro desde 1999, com Central do Brasil. Mas é importante ressaltar que Cidade de Deus, em 2004, conseguiu quatro indicações nobres na competição: diretor, roteiro, montagem e fotografia. Ou seja, um feito gigantesco para um filme estrangeiro. É raro um longa falado em língua não inglesa conseguir quatro indicações em quaisquer categorias.

De toda forma, de 1999 para cá, a Argentina conseguiu quatro indicações, tendo vencido uma vez, com O Segredo dos Seus Olhos, em 2010. Certamente, as comparações entre as cinematografias de Brasil e Argentina voltariam à baila depois dessa indicação de Relatos Selvagens, que já vinha sendo usado como exemplo do ótimo cinema produzido por lá, mas infelizmente atrelado a muitos comentários negativos sobre o cinema daqui.

Vamos deixar uma coisa bem clara: só recebemos a nata do cinema argentino. Isso não chega a dez filmes ao ano, quando muito. Falo sério. Desses, pelo menos metade com o Ricardo Darín. Em geral, é esse microcosmo que as pessoas usam para comparar com o que é feito aqui. Produzimos, anualmente, entre 80 e 90 filmes. Às vezes, mais do que isso. Em 2013, passamos de cem, só para dar um exemplo.

o-segredo-dos-seus-olhos-900x602.jpgO Segredo dos Seus Olhos

Sejamos sinceros: qual a porcentagem de filmes nacionais a que assistimos em um ano? Se você for um assíduo frequentador de cinemas, e um grande admirador do cinema nacional, dificilmente deve chegar a ver um terço do que é produzido aqui. Com isso, estou falando que o cinema argentino não é bom? De maneira alguma. Só acho injusto o que é feito com os nossos filmes ao compararmos o tempo todo com o cinema de lá. Aliás, é injusto com os dois países, principalmente pelo fato de que temos uma amostra tão pequena de ambas as cinematografias para comparar.

A grande questão é que os filmes argentinos que chegam por aqui passam por uma curadoria das distribuidoras, que assistem a vários títulos e trazem para cá apenas aqueles que julgam ser os melhores e com mais chances de fazer sucesso com o público brasileiro. Aos filmes ruins, e eu não duvido que eles também produzam coisas fracas, porque todos os países o fazem, a gente não tem acesso. Já com o cinema nacional, com uma oferta de aproximadamente dois novos lançamentos a cada semana, fica fácil nos arriscarmos a ver algum e ele não nos agradar. Lembrem-se: são cerca de 90 filmes ao ano. Há bastante coisa de qualidade duvidosa nesse meio, mas com certeza está cheio de ótimos filmes também.

O que me deixa chateado com essa comparação boba entre os dois países, é que ela sempre serve para ressaltar uma questionável falta de qualidade do cinema. Aliás, o cinema brasileiro já está tão estigmatizado que praticamente virou sinônimo de filme ruim. Cinema nacional virou gênero e quase sempre sinônimo de filme de baixa qualidade, como se aqui se produzisse apenas um tipo de filme. Pelo contrário, nossa cinematografia é muito ampla, e produzimos filmes muito diferentes entre si, de Norte a Sul do país.

tatuagem.jpgTatuagem
Curiosamente, boa parte das pessoas que criticam os filmes brasileiros é justamente o público dito ~cinéfilo~, que aproveita para usar como exemplo de filme ruim as produções da Globo Filmes, que praticamente monopolizam os lançamentos em larga escala dos filmes brasileiros. Esse mesmo público, muitas vezes, se nega a ver outros filmes nacionais, que acabam lançados em poucas salas. Em contrapartida, lotam as sessões (que também são poucas) dos filmes argentinos que chegam por aqui. Aí fica fácil colocar o cinema da Argentina em um pedestal e o daqui ser jogado inteiro em um mesmo saco com o rótulo de ruim. A grama do vizinho é sempre mais verde.

Isso quer dizer que as pessoas não podem achar o cinema argentino melhor? De forma alguma. Cada um acha o que quiser achar. Tem gente que gosta até de filme iraniano (opa, eu adoro!). Só acho que elas precisam se atentar para que a comparação não seja injusta. Para que não estejamos comparando o Messi com um jogador brasileiro de várzea (não que não tenhamos ótimos jogadores lá). O que eu quero dizer com isso? Que escolher filmes como o próprio Relatos Selvagens ou O Segredo dos Seus Olhos e compará-los com Muita Calma Nessa Hora ou Copa de Elite é uma covardia. E, em geral, é o tipo de comparação que vejo quando alguém tenta traçar um paralelo entre as cinematografias dos dois países.

Agora, se você substituir os representantes brasileiros por O Lobo Atrás da Porta, Tatuagem, Praia do Futuro, O Som ao Redor, A Despedida, entre tantos outros (e só citei filmes recentes), o embate sai faísca. Aí a gente começa a perceber que não é tão discrepante a diferença de qualidade entre o cinema dos dois países. Será que não nos falta um pouco mais de coração aberto ao assistirmos aos filmes nacionais? Ou talvez uma pesquisa melhor na tentativa de buscar títulos mais interessantes produzidos por aqui do que apenas os lançamentos mais populares da Globo Filmes?

Respondendo à pergunta do título, será que o cinema argentino é muito melhor que o brasileiro? Não sei. Talvez sim, talvez não. A questão deveria ser: importa? Eu acho que não. No fim das contas, se a gente parar de se preocupar com essas comparações, talvez a gente também pare de dizer tanto que os filmes de lá são muito melhores que os daqui e passe a falar que ambos os países produzem ótimos filmes, que não devem em nada à cinematografia de qualquer outro país.

o-lobo-atrás-da-porta-900x562.jpgO Lobo Atrás da Porta

 

 

Carlos Carvalho / 16 de janeiro de 2015