Munido dessas informações, pode-se afirmar com segurança que Um Homem com Uma Câmera é a experiência prática para a teoria criada por Vertov. Aqui, a palavra “experiência” ganha mais importância, pois ela é usada pelo próprio cineasta para descrever o documentário. Acredito que tenha sido usada não só porque o filme era um teste para comprovar os pensamentos do cineasta, mas também para sedimentar o próprio gênero de documentário em meio a tantas obras de ficção, que naquela época já eram produzidas em grande escala.

O filme procura intercalar os mais variados acontecimentos de cidades daRússia da década de 20 (que vão desde a esfera pública como a prática de esportes, trânsito, trabalho, até às mais privadas, como partos) com imagens do “homem com uma câmera”, que registra estes mesmos fatos. No entanto, o filme não se limita a mostrar os fatos como foram inicialmente capturados pela câmera. Vertov faz uso de várias técnicas de edição para chegar à “verdadeira realidade”. Esses recursos vão desde os mais simples, como uma colagem de várias imagens diferentes em um curto espaço de tempo (ou seja, vários cortes bruscos acontecem, dando a impressão de rapidez) até os mais complexos para a época, como a sobreposição de imagens.

Um Homem com Uma Câmera é um filme revolucionário e importantíssimo para a época, não só pelos truques de montagem acima mencionados, que são usados pelos cineastas e editores até hoje, mas também por ser um dos primeiros exemplares de documentário existentes amparados por teoria de representação da realidade.

“Representação”, também, é uma palavra-chave. Acredito que a realidade é algo impossível de se captar, por ser um complexo elemento social e natural e que não pode ser simplificado, de maneira alguma, por uma sucessão de celulóides. O que é possível fazer é realizar uma representação da realidade, ou seja, o cineasta consegue apenas filmar a sua visão sobre ela. Foi isso que Vertov conseguiu em Um Homem com uma Câmera na qual apresentou uma abordagem multifacetada e caleidoscópica da sociedade russa dos anos 20. Além disso, o cineasta deixa claro que o filme é apenas uma interpretação do mundo em que ele vivia ao colocar sempre trechos do próprio filme sendo montado, de fotogramas parados para alguns segundos para só depois se movimentarem., a icônica cena inicial.. É como se Vertov estivesse dizendo: “isto é apenas uma ilusão, não é o ‘mundo real’”. Por isso, fica bastante claro que a Rússia do filme é uma Rússia criada totalmente por Vertov. Da mesma forma, um outro cineasta poderia muito bem criar um retrato bem mais comedido e realista desse mesmo grupo de pessoas, dessa mesma época. Talvez, a representação seja a “verdadeira realidade” a que Vertov se referia.

Mas o filme de Vertov não chama atenção apenas pelo seu valor histórico e teórico: o filme consegue se manter envolvente mesmo nos dias atuais, dado o seu apuro técnico. Algumas das imagens são belíssimas, como as dos carros transitando nas ruas. Além disso, a trilha sonora é altamente eficaz e ajuda o espectador a se inserir naquela realidade tão distante de nós (tanto temporal quanto espacialmente) e apreciar cada acontecimento registrado na tela. É um filme curto (tem apenas 68 minutos), mas sua duração é ideal para demonstrar as ideias de Vertov e não deixar o espectador muito cansado com a sucessão rápida de imagens.

OBS: Este é certamente um dos filmes que mais tem títulos diferentes em português. Você pode encontrá-lo como O Homem da Câmera, O Homem com a Câmera, além do título que eu utilizei, Um Homem com Uma Câmera.

FICHA TÉCNICA

Título original:Chelovek s kino-apparatom
Ano de lançamento:1929
Direção: Dziga Vertov
Produção: Não divulgado
Roteiro: Dziga Vertov
Duração: 68 minutos
Elenco: Mikhail Kaufman (Cinegrafista)
 
por cine analise