por Alessandro Rocha
Eric Hobsbawm, no livro A invenção das Tradições, faz uma boa discussão sobre o quanto as tradições são “jovens”, diferentemente do que querem admitir aqueles que as reclamam como se fossem a continuidade de certas verdades conservadas desde as origens. O conceito utilizado por Hobsbawm para o fenômeno das jovens tradições que se querem tão antigas quanto o objeto que as origina é “invenção das tradições”.
Por “tradição inventada” entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado (1).
O movimento neoconservador observado no cenário evangélico brasileiro atual, marcado por certo discurso apologético com verniz intelectual, encerra-se nos limites dessa análise feita por Hobsbawm. Ele reclama para si a defesa da verdade da fé, inserindo-se numa tradição que remonta à fonte da verdade. O discurso neoconservador, notadamente encarnado pelos autodenominados neocalvinistas, quer passar a noção de total continuidade do dito com relação ao fato. Ancorando sua fala numa cadeia ininterrupta de testemunhas autorizadas da fé, o que se quer demonstrar de fato é que tal fala não pertence a quem a diz, mas ao próprio Deus que a revelou e que garante sua intocada permanência.
O recurso retórico à Escritura como fonte daquilo que se quer apresentar como verdade imutável, não revela que “Escritura” assim como utilizada é certa leitura realizada em determinado momento e, deslizada para dentro do espaço autoritativo do cânon. Não é a Escritura, mas uma leitura da Escritura que não assume sua condição histórica, escondendo-se por detrás do argumento canônico que o conceito de Escritura oferece. Ainda m diálogo com Hobsbawm percebemos que:
Na medida em que há referência a um passado histórico, as tradições “inventadas” caracterizam-se por estabelecer com ele uma continuidade bastante artificial. Em poucas palavras, elas são reações a situações novas que ou assumem a forma de referência a situações anteriores, ou estabelecem seu próprio passado através da repetição quase que obrigatória (2).
Diante desse teatro onde as verdadeiras faces se confundem com máscaras que as querem dissimular, a pergunta se apresenta desde a coxia: O que conservam os neoconservadores? Em seus discursos a resposta encontrada é: a Escritura. A sã doutrina. A tradição. Eu diria: certa interpretação da Escritura (que não confessa sua condição relativa). A reta doutrina (um mecanismo de controle de toda discursividade dissonante). Uma tradição inventada (em meio a tantas outras igualmente inventadas).
É preciso desnudar a condição de intérpretes entre intérpretes que constitui os neoconservadores, para então aproximar aos critérios do evangelho todos os discursos, afim de que suas intencionalidades sejam discernidas à luz do Mestre de Nazaré e na companhia de seus amigos e amigas. É preciso demonstrar o quanto é realizado um deslizamento de cosmovisões para dentro das origens (Escritura), e como depois se retorna a tais origens para ali encontrar o que anteriormente foi colocado estrategicamente. Uma vez encontrado o que antes fora plantado, ele é repetido sistematicamente até soar como natural: é a teologia da repetição sistemática.
Como observa Hobsbawm: “O objetivo e a característica das ‘tradições’, inclusive das inventadas, é a invariabilidade. O passado real ou forjado a que elas se referem impõe práticas fixas (normalmente formalizadas), tais como a repetição” (3). Neste sentido, o que ocorre é a criação de uma disciplina de ditos e práticas, que pela repetição imemorialística vai se assentando como verdade do próprio Deus. Diante disto e, para o bem do debate teológico, é preciso perceber que quando os discursos apologéticos dizem que falam pela Escritura (não necessariamente por zelo à Escritura, mas por vontade de imposição da verdade), falam por aquilo que deslizaram para dentro da Escritura e confundem (propositalmente?!) com ela própria.
A alegação de que certa fala encontra-se na continuidade harmônica com as origens autoritativas da fé escamoteiam personalidades autoritárias e práticas fascistas de controle, desqualificação e destruição das diferenças e, sobretudo, dos diferentes. Termino com Hobsbawm dizendo: “Consideramos que a invenção de tradições é essencialmente um processo de formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição” (4).
Notas
(1) HOBSBAWM, Eric & RANGER, Terence (Orgs). A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984, p. 9. (2) Idem, p. 10. (3) Idem, p.11. (4) Idem, p.13.