Retrospectiva mostra prédios que se destacam ao redor mundo

Uma produção eclética marca o cenário arquitetônico mundial dos últimos 40anos. Variadas estéticas e tipologias resultam de ideias como transparência, inovação tecnológica, eficiência ambiental, ressignificação do passado e a cultura como mote principal. Casa Vogue aponta aqui os highlights

A arquitetura dos últimos 40 anos (Foto: Leonardo Finotti)

São Paulo, Brasil, 1979
Casa Bola, de Eduardo Longo

Num tempo em que o planeta caminhava rumo ao consumismo exacerbado, o arquiteto paulistano ergueu para si, sobre a residência onde morava, uma casa em formato esférico, inaugurada em 1979, mas jamais finalizada – o experimento segue em constante mudança. Os interiores foram totalmente desenhados por Longo: móveis, luminárias, fogão, geladeira, tudo integrado às paredes e ao piso. A Casa Bola, que já ganhou elogios do Pritzker Rem Koolhaas, não permite o acúmulo de muitos pertences, algo revolucionário para a época.

A arquitetura dos últimos 40 anos (Foto: © Prisma Bildagentur AG / Alamy)

Londres, Reino Unido, 1986
Lloyd’s Building, de Richard Rogers

Como que saído de uma cena de Blade Runner, o edifício de entranhas expostas sedia umas das mais antigas companhias de seguros do mundo. Aqui, “nada se esconde, tudo está expresso”, afirma o seu autor, sobre a ideia de colocar os elementos funcionais – dos encanamentos aos elevadores – na fachada, abrindo totalmente o espaço interno para os negócios (e para a luz natural proveniente da cobertura de vidro sobre o átrio central). Rogers inventava, assim, o ambiente corporativo como o conhecemos hoje.

A arquitetura dos últimos 40 anos (Foto: Leonardo Finotti)

São Paulo, Brasil, 1982-1986
Sesc Pompeia, de Lina Bo Bardi

Expressão máxima da arquitetura democrática defendida pela autora em toda a sua carreira, a transformação de uma fábrica de tambores em “centro de lazer”, como queria Lina (não “cultural”, não “desportivo”), causou espécie. Era diferente de tudo o que havia na São Paulo de então. Um dos motivos era o bloco esportivo, um prédio novo, de concreto, cuja forma de “silo, bunker ou container” dotado de passarelas suspensas remetia ao passado fabril do conjunto. Uma “pequena alegria numa triste cidade”, disse Lina sobre o projeto.

A arquitetura dos últimos 40 anos (Foto: Leonardo Finotti)

São Paulo, Brasil, 1998
Pinacoteca do Estado, de Paulo Mendes da Rocha

Fazer coexistirem diferentes épocas em um mesmo tempo é o trunfo da reforma que tornou uma escola do século 19 criada por Ramos de Azevedo em museu de arte para o presente e o futuro. As intervenções de Paulo Mendes da Rocha foram pontuais – e decisivas: a mudança do eixo de circulação do prédio, a cobertura de pátios internos com metal e vidro e a colocação de passarelas metálicas que cruzam esses pátios por cima. “Nada é modificado, ainda que tudo seja transformado.” Assim resumiu Mendes da Rocha o seu pequeno milagre.

A arquitetura dos últimos 40 anos (Foto: Glow Images)

Berlim, Alemanha, 1999
Reichstag, de Norman Foster

Símbolo do renascimento de Berlim pós-queda do Muro, a sede do parlamento alemão é uma obra-prima da transparência – arquitetônica, histórica e política – e da sustentabilidade. Pelas mãos de Foster, camadas de acontecimentos atravessados pelo palácio de 1894 foram deixadas à mostra: guerras, incêndios, reformas. Adição principal, a notável cúpula de metal e vidro permite aos visitantes, ao caminharem por rampas espiraladas, contemplar tanto a cidade lá fora quanto os políticos trabalhando logo abaixo. De quebra, o edifício ainda produz mais energia do que consome.

A arquitetura dos últimos 40 anos (Foto: Editora Globo)

Seattle, Estados Unidos, 2004
Biblioteca Central, de Oma

Como uma biblioteca pode ser atraente e ao mesmo tempo relevante em plena era digital? O escritório de Rem Koolhaas respondeu com o que chamou de “armazém de informação em todas as suas formas”: livros e diversas outras mídias, do presente e do futuro, convivem em harmonia. Não só, como os autores fizeram dele um verdadeiro espaço público organizado em torno do conhecimento. Áreas concebidas para encontros e conversas, além de um jardim interno e uma sala de leitura com vistas para a cidade (foto) reinventaram a biblioteca tradicional e reafirmaram a sua necessidade.

A arquitetura dos últimos 40 anos (Foto: Alamy)

Madri, Espanha, 2008
Caixaforum, de Herzog & de Meuron

“Amputar” a base de uma velha usina termoelétrica foi o golpe de mestre que garantiu a Jacques Herzog e Pierre de Meuron não só transformá-la num museu de arte contemporânea, mas também criar uma praça coberta no térreo, dando uma nova dimensão pública ao local. O pesado volume de tijolos tombados e metal rústico (intervenção do escritório) paira a poucos metros do solo, sem jamais tocá-lo. O encanto se completa graças a uma segunda praça aberta logo em frente, onde Patrick Blanc compôs um jardim vertical.

A arquitetura dos últimos 40 anos (Foto: Editora Globo)

Paris, França, 2014
Fondation Louis Vuitton, de Frank Gehry

O homem que mudou o mundo com o Guggenheim de Bilbao (hors concours nessa lista) é incapaz de se repetir. No museu de arte contemporânea erguido no Bois de Boulogne – por si só um feito, aprovar um projeto dessa ousadia na quase intocável Paris –, panos de vidro curvo que compõem a fachada remetem a velas e parecem ter sido congelados no meio de uma explosão, revelando as vigas de madeira que os sustentam. O contraste entre a robustez da estrutura e a suavidade dos traços reafirma o que a arquitetura sempre foi para Gehry: uma experiência sensorial acima de tudo.

A arquitetura dos últimos 40 anos (Foto: Editora Globo)

Baku, Azerbaijão, 2012
Centro Heydar Aliyev, de Zaha Hadid

Os chamados softwares de desenho paramétrico alteraram drasticamente a atividade arquitetônica nas últimas duas décadas, e o trabalho da arquiteta anglo-iraquiana talvez seja o que mais utiliza essas ferramentas – e melhor simboliza essa nova era, em que formas antes inimagináveis são tornadas realidade. Ao dobrar e curvar as calçadas da capital azeri até fazer emergir um edifício de fortíssima carga dramática, Zaha atinge, com este colossal centro cultural, o auge de sua proposta estética. Até agora…

20/01/2016 | POR GUILHERME AMOROZO