Por Rico Machado | Instituto Humanitas Unisinos — IHU


Depois de ajustar o último botão da camisa branca e acochar o nó da gravata ao pescoço, vestiu o terno preto e embarcou em seu Mustang modelo 1968. Chegou à região do Lorraine Motel, em Memphis, Estados Unidos, no final do dia. Exatamente um minuto depois das 18 horas, prendeu a respiração, esmagou lentamente o gatilho e uma fração de segundo separou o estampido seco do seu rifle ao destino final do projétil, distante cerca de 100 metros: a parte inferior direita do rosto de Martin Luther King Jr., destruindo seu maxilar e jogando-o contra a parede. O elegante homem branco de terno negro embarcou novamente no Mustang, deu partida e deixou discretamente a região.

Sacada do Hotel Lorraine logo após o atentado contra Luther King, deitado no chão.

Há exatos 48 anos essa cena tornou-se o pesadelo real dos negros dos Estados Unidos, que sonhavam com uma sociedade mais igualitária. A morte de Martin Luther King Jr., que fora levado a um hospital local, foi confirmada cerca de meia hora depois do atentado. Encerrava ali a vida de um dos maiores ativistas de todos tempos, que em 13 anos — entre 1955 e 1968 — havia feito uma verdadeira revolução nos direitos civis dos negros norte-americanos. Em pouco mais de uma década, seu êxito foi maior que os 350 anos precedentes.

Assassino

Assassino confesso de Luther King

James Earl Ray, assassino confesso de King (embora tenha desfeito a confissão posteriormente), foi preso no aeroporto londrino de Heathrow e extraditado para os EUA, cerca de dois meses depois do crime, em junho do mesmo ano. Ray, que era fugitivo da Penitenciária Estadual do Missouri, já havia cometido outros atos racistas antes de ser preso. Pela morte do líder político, foi condenado a 99 anos de prisão em regime fechado no Tennessee, mas morreu aos 70 de idade, em 1998, vítima de insuficiência renal devido a hepatite C.


“Eu tenho um sonho que um dia, nas montanhas rubras da Geórgia, os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes de donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade”


“I have a dream”

No vídeo, um dos mais conhecidos discursos em língua inglesa no mundo todo.

Océlebre discurso (na íntegra no vídeo acima) proferido por Martin Luther King Jr., no dia 28 de agosto de 1963, alçou seu nome ao Prêmio Nobel da Paz no ano seguinte. Sua luta contra a desigualdade racial baseada em preceitos de não-violência o impulsionaram como uma das figuras públicas mais conhecidas ainda hoje.

Discurso no National Mall, em Washington

Diante de 250 mil pessoas, no National Mall, em Washignton, Luther King abriu o peito para falar sobre o seu sonho de um país socialmente justo e racialmente igualitário. Entre os ouvidos surdos do gigante de pedra Abraham Lincoln, às costas; e as paredes neoclássicas do Capitólio, na outra extremidade; uma multidão de ouvidos e gentes testemunharam o discurso de King, esperançosa por um mundo utopicamente melhor.


“Eu tenho um sonho que um dia o estado do Alabama, com seus racistas cruéis, cujo governador cospe palavras de ‘interposição’ e ‘anulação’, um dia bem lá no Alabama meninos negros e meninas negras possam dar-se as mãos com meninos brancos e meninas brancas, como irmãs e irmãos.”


A luta

Alguns momentos históricos de Luther King.

* 1955 *

Rosa Parks (acima) em um ônibus à época da segregação do transporte público no Alabama

No primeiro dia de dezembro de 1955, Rosa Parks, que viria a ser uma das principais ativistas negras dos EUA, grávida à época, descumpriu a legislação em Montgomery, no Alabama, e manteve-se sentada no ônibus não dando lugar a um branco que havia embarcado. A partir de então, Luther King aderiu à pauta e também tornou-se um dos principais porta-vozes da campanha de desobediência e resistência civil. Foi preso na ocasião. Em 1956, uma decisão da Suprema Corte dos EUA determinou que a lei de segregação no transporte público era inconstitucional.

* 1957 *

Luther King, que era pastor da Igreja Batista, foi eleito presidente da Conferência Cristã do Sul (SCLC — na sigla em inglês). A organização buscava articular e ampliar a voz dos defensores dos direitos civis nos Estados Unidos. Seguiu à frente da organização até seu assassinato, onze anos mais tarde.

*1963*

Jovem negro é atacado por cachorros da polícia em Birmingham, no Alabama

Nos idos de 1963, Birmingham, no Alabama, foi considerada uma das cidades mais racistas e segregadoras dos Estados Unidos. As imagens de policiais lançando cachorros e jatos de água contra jovens negros ocuparam páginas de jornais e as transmissões televisivas da época. No dia 16 de abril do mesmo ano, Luther King escreveu a “Carta da prisão de Birmingham” (Letter from a Birmingham Jail, no original), texto que ainda hoje é leitura obrigatória em universidades do mundo todo.

*1964*

Luther King, quando agraciado com Nobel

Quando eleito ao Nobel da Paz, Luther King, aos 35 anos, havia sido a mais jovem pessoa a receber tal honraria. O seu discurso, em Oslo, é um dos mais lembrados da história, sobretudo por conta da frase: “Eu acredito que a verdade desarmada e amor incondicional terão a palavra final na realidade”.

*1965*

Somente em 1965 as restrições aos votos das pessoas negras em algumas regiões dos Estados Unidos foram revogadas no Congresso. Essa conquista foi resultado da pressão exercida pelo movimento negro que realizou (ou tentou realizar) três marchas da cidade de Selma à capital do Alabama, Montgomery. As manifestações foram duramente reprimidas pela polícia local. Luther King participou dos protestos, mas foi decisivo na segunda marcha, no dia 9 de março, quando a polícia e os manifestantes ficaram frente a frente e, depois das tropas militares se deslocarem para “deixar” as pessoas passar, o líder político retornou com o grupo para a Igreja. Após duas tentativas frustradas, em 24 de março de 1965 os insurgentes alcançaram a cidade de Montgomery.


“Essa é a nossa esperança. Essa é a fé com a qual eu regresso ao Sul. Com essa fé nós poderemos esculpir na montanha do desespero uma pedra de esperança. Com essa fé poderemos transformar as dissonantes discórdias do nosso país em uma linda sinfonia de fraternidade.”


Marcha de Selma a Montgomery: Ralph Abernathy, James Forman, Luther King, Reverend Jesse Douglas e John Lewis

Utopia viva

Um dos grandes legados de Martin Luther King Jr. foi acreditar na utopia. Rememorar a vida de uma das figuras humanas mais importantes da história ocidental é manter acesa a chama utópica. Luther King resistiu não somente às segregações, resistiu à morte. O líder político foi acossado pelas autoridades dos EUA, teve telefonemas grampeados, foi acusado de relações extraconjugais e recebeu uma carta sugerindo que ele se suicidasse. Ele resistiu.

Documento apócrifo do FBI sugerindo que Luther King se suicidasse

Embora Luther King tenha se tornado um pacifista internacionalmente conhecido e atualmente lembrado, apostou na desobediência civil como forma de romper os grilhões do racismo norte-americano. O disparo que calou a voz de um dos maiores líderes negros dos Estados Unidos (e do mundo), não foi capaz de matá-lo, senão de eternizá-lo. Fazer memória é trazer vida à vida. Passados 42 anos do último passo dado na sacada do Hotel LorraineMartin Luther King Jr. continua mais vivo do que nunca. O sonho, a utopia sobrevivem tempos de distopias desérticas.


E quando isso acontecer, quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e cada lugar, de cada estado e cada cidade, seremos capazes de fazer chegar mais rápido o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção espiritual negra:

Finalmente livres! Finalmente livres!

Graças a Deus Todo Poderoso, somos livres, finalmente!

Martin Luther King, 28 de agosto de 1963.



Fonte: http://www.thekingcenter.org/

Fonte das imagens por ordem de exibição: History Channel — UK, Save the Flower, Wikipedia, USA Today, Click Estudante, My Hero, CBS News, Story Pick, Wikipedia, History Channel — UK