Exposição Versalhes Anish Kapoor (Foto: divulgação)

Mostra reúne obras de Anish Kapoor – Dirty Corner, 2011-2015

Se existe um artista à vontade com obras monumentais, ele é Anish Kapoor, autor deCloud Gate, escultura de aço inox de 110 toneladas disposta no Millennium Park, em Chicago, e de Leviathan, instalação inflável de PVC vermelho, com 35 m de altura, que, por pouco, não tocou a verrière do Grand Palais, onde foi montada temporariamente em 2011. Depois de aceitar o convite do Palácio de Versalhes para expor nos seus mais de 800 hectares, até 1º de novembro, engasgou-se momentaneamente diante da grandiosidade da propriedade, como se a visse pela primeira vez. “Esta escala…”, sussurrou o inglês de origem indiana, impressionado com a perspectiva do eixo principal do jardim geométrico, alinhado de acordo com o nascer e o pôr do sol, uma referência ao rei Luís XIV, que lá viveu.

Exposição Versalhes Anish Kapoor (Foto: divulgação)
Anish Kapoor

“Cheguei à conclusão que Versalhes não precisava de decoração”, me contou Kapoor no dia da abertura da mostra. Sua solução foi, então, introduzir o caos na racional obra do jardineiro-paisagista André Le Nôtre. Logo na entrada, os visitantes se deparam com C-Curve e Sky Mirror, que dizem a que ele veio: essas esculturas de aço inox refletem os arredores, deformando e botando de ponta-cabeça a configuração espacial. A brutalidade de Descension, uma pequena bacia d’água artificial com um vórtex que produz um turbilhão, nada tem a ver com as inocentes fontes do século 17 ali espalhadas. O buraco é literalmente mais embaixo para Kapoor: “Quis trazer à tona aspectos sombrios que contrastassem com a imagem ultracontrolada e ilusionista deste lugar histórico”.

Exposição Versalhes Anish Kapoor (Foto: divulgação)
Descension, 2014

Não espere respostas concretas do que exatamente o artista pretende desenterrar em Versalhes. Numa entrevista ao Journal du Dimanche, sugeriu que a forma do gigantesco orifício de Dirty Corner poderia ser interpretado como “a vagina da rainha”. Desde então, choveram críticas de franceses puritanos – eles devem ter se esquecido de que os cantos escondidos do jardim foram pensados para os encontros sexuais de toda a corte real. Kapoor prefere conceber obras com múltiplas leituras, como Shooting into the Corner, pintura feita a tiros de canhão, cujas balas gordas e pesadas de cera vermelha projetadas contra a parede branca se esparramam pelo chão, lembrando entranhas humanas.

Exposição Versalhes Anish Kapoor (Foto: divulgação)
Sky Mirror, 2013

Única peça a confrontar um interior dos aposentos palacianos, Shooting into the Corner foi instalada na famosa sala do Jeu de Paume, onde, em1789, deputados assinaram o juramento de liberdade, igualdade e fraternidade, primeiro passo para a democracia francesa. No dia da abertura da exposição, o artista lembrou que, às vezes, para a humanidade avançar, são necessários atos violentos. “Assim como a arte”, acrescentou.

Exposição Versalhes Anish Kapoor (Foto: divulgação)

Shooting into the Corner, 2008-2009, na sala do Jeu de Paume, em Versalhes
Exposição Versalhes Anish Kapoor (Foto: divulgação)
C-Curve, 2007
Exposição Versalhes Anish Kapoor (Foto: divulgação)
Sectional Body preparing for Monadic Singularity, 2015
POR ISABEL JUNQUEIRA