A cinematografia brasileira é um oceano de filmes ruins. Para cada pérola como “Cidade de Deus” ou “Tropa de Elite” existem dezenas ou mesmo centenas de filmes absolutamente lamentáveis. Verdadeiras bombas produzidas com dinheiro público pela Embrafilme e via Lei Rouanet, ou ainda na Boca do Lixo, as pornochanchadas, na Vera Cruz, ou o atual amadorismo do formato digital. Seleciono aqui apenas uma pequena mostra dessa imensa galeria. Advirto que nessa pequena lista não há espaço para filmes que parecem ruins, mas que, na verdade, são bons, como “Idade da Terra” (1980), de Glauber Rocha. Dentre os 21 selecionados só temos o que há melhor, ou de pior, dependendo do ponto de vista.
por Ademir Luiz

A Carrocinha (1955, de Agostinho Martins Pereira)

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O crítico Paulo Emílio Salles Gomes no clássico artigo “Chaplin é cinema?” observou que Charles Chaplin era uma grande figura cinematográfica, mas seus filmes, normalmente, eram apenas medianos. Algo parecido acontece com Mazzaropi que, salvo exceções como “O Corintiano” ou “Casinha Pequenina”, protagonizou filmes muito ruins. Esse “A Carrocinha”, feito no início de sua carreira, é um exemplo dentre muitos. Pode levar para o abate.

Garota Dourada (1984, de Antônio Calmon)

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Continuação do cult “Menino do Rio” de 1981, que também é fraco, mas não o suficiente para entrar nessa lista. Para definir os méritos artísticos de “Garota Dourada” basta informar que as melhores atuações do filme foram entregues pelos mitológicos Sérgio Mallandro e Alexandre Frota. Qual é o negócio?

A Ilha dos Paqueras (1970, de Fauzi Mansur)

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Primeiro filme de Renato Aragão, ainda na companhia de apenas um dos futuros Trapalhões, Dedé Santana. O quarteto faria obras divertidíssimas como “Os Saltimbancos Trapalhões” e “Os Trapalhões no Auto da Compadecida”, que para mim é superior à versão dirigida por Guel Arrais, mas nesse “A Ilha dos Paqueras”, Didi e Dedé naufragaram feio. Talvez tenha faltado o Mumu da Mangueira e certo mineirinho de Sete Lagoas.

Fofão e a Nave sem Rumo (1989, de Adriano Stuart)

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Fofão é um ícone para minha geração. Nada mais justo do que ganhar um filme. Pena que não apenas a nave estava sem rumo, mas também o roteiro, as atuações, a direção, a fotografia.

Cinderela Bahiana (1998, de Conrado Sanchez)

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Talvez o campeão moral (ou imoral?) da lista. Basicamente uma versão tupiniquim de “Uma Linda Mulher” trocando Julia Roberts por Carla Perez. O resultado? Citando os saudosos Mamonas Assassinas: uma “Arlinda Mulher” em ritmo de axé.

Villa-Lobos, Uma Vida de Paixão (2000, de Zelito Viana)

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Por que insistem no absurdo de que Antônio Fagundes se parece com Marcos Palmeira? Quando não são pai e filho, um é a versão mais jovem do outro! Pode isso, Arnaldo? Ah, sobre o filme: novela das seis.

Xuxa e os Duendes (2001, de Paulo Sérgio de Almeida, Rogério Gomes e Márcio Vito)

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Sejamos justos: Xuxa teve participações pequenas em bons filmes, como “O Mágico de Oroz”, dos Trapalhões, e o polêmico “Amor, Estranho Amor”, uma reflexão cinematográfica sobre o Complexo de Édipo. Também protagonizou obras legais, como o bem-amarrado “Lua de Cristal” e a pérola trash “Super-Xuxa contra o Baixo Astral”, que de tão ruim é bom. Porém, sua filmografia é repleta de caça-níqueis vergonhosos. Esse “Xuxa e os Duendes” é um exemplar escolhido quase ao acaso, tamanha a oferta de obras pífias. Por que quase? Ocorreu que durante sua campanha de marketing, Xuxa declarou que acreditava e viu duendes. Uma declaração como essa faz toda diferença. Eu não acredito em duendes, mas acredito na Xuxa, talvez porque eu tenha assistido “Amor, Estranho Amor”.

Dom (2003, de Moacyr Góes)

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A musa Maria Fernanda Cândido no papel de Capitu parecia uma ideia perfeita, tanto que foi reaproveitada na minissérie da Globo. Bom demais para ser verdade? Sim, afinal Bentinho ficou sendo Marcos Palmeira e Escobar, Bruno Garcia. Agora entendi os tais olhos de ressaca da Capitu. Bebia para esquecer.

Acquaria (2003, Flávia Moraes)

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Sandy e Júnior no mundo de Mad Max. Quantos segundos vocês acham que a saltitante e virginal dupla duraria nas mãos de lorde Humungus?

Garrincha, Estrela Solitária (2003, de Milton Alencar)

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Um projeto com tudo para dar certo. A história de um mito do futebol baseada na ótima biografia escrita por Ruy Castro, a bela Taís Araújo como Elza Soares, o bom ator André Gonçalves no papel título etc. O que deu errado? Tudo. Teria sido melhor ir ver o filme do Pelé.

O Coronel e o Lobisomem (2005, de Maurício Farias)

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Se você é roteirista, anote a lição número um para quando se vai adaptar uma obra-prima da literatura: não modifique a história. Pode ter certeza que o autor original sabia o que estava fazendo, e você não vai conseguir melhorar o que já é ótimo. Agora, se você é diretor de elenco procure se lembrar da opção óbvia e não tente ficar inventado (nesse caso, a substituição de Marco Nanini, que fez um Ponciano de Azeredo Furtado perfeito na TV, por um deslocado Diogo Vilela).

Confronto Final (2005, de Alonso Gonçalves)

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Jackson Antunes acreditando que é de fato o Charles Bronson brasileiro.

JK, Bela Noite Para Voar (2005, de Zelito Viana)

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Depois de transformar a história de Villa-Lobos numa novela das seis, Zelito Viana redobra seus esforços e faz o mesmo com JK. Para completar, a atuação de José de Abreu teve o demérito de fazer José Wilker parecer ótimo no mesmo papel.

1972 (2006, de José Emílio Rondeau)

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Quando descobri esse filme fiquei animado. Afinal, eram os jornalistas José Emílio Rondeau, produtor do primeiro disco do Legião Urbana, e Ana Maria Bahiana, uma excelente crítica de cinema, que assina o roteiro, fazendo uma obra audiovisual sobre o cenário musical da década de 1970. Decepção. Tenho certeza que mais ainda para eles.

Encarnação do Demônio (2008, de José Mojica Marins)

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Considero José Mojica Marins um gênio intuitivo. Os dois primeiros filmes da trilogia Zé do Caixão, “À Meia-Noite Levarei sua Alma” e “Esta Noite Encarnarei em seu Cadáver”, são verdadeiras pérolas do terror tupiniquim e mundial. Essa terceira parte da trilogia é um pastiche, transformando Zé do Caixão numa piada. Afinal, um torturador sádico, jogado no meio do inferno, se preocuparia em usar luvas de látex para evitar contaminação enquanto costura a boca de sua vítima?

Entre Lençóis (2008, de Gustavo Vieto Roa)

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Reynaldo Gianecchini é um rapaz esforçado, sem dúvida. Com certeza, tem muito carisma. Mas não é um ator dramático capaz de segurar uma hora e meia de diálogos pesados num filme que é quase teatro filmado. Seria mais produtivo se ele e Paola Oliveira, que ficam seminus 90% do tempo, tivessem menos pudores e fizessem logo uma “produção adulta”.

Do começo ao Fim (2009, de Aluizio Abranches)

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Poderia ser uma obra profunda e complexa sobre um amor homossexual entre irmãos, com todas as implicações dramáticas que isso resultaria, mas optou por ser um pornô light exibindo dois bofes bombados, num episódio de “Malhação” indicado para maiores de 16 anos.

Lula, Filho do Brasil (2009, de Fábio Barreto e Marcelo Santiago)

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Não sou exatamente um admirador do ex-presidente Lula, mas acho que ele merecia uma cinebiografia melhor, considerando o potencial dramático de sua trajetória. Nem é o caso de entrar no mérito se o filme foi uma apologia precoce visando as eleições majoritárias de 2010. O filme é simplesmente ruim. Tudo é fora do tom. Nem o ator principal sabe se prende a língua ou não. Às vezes prende, às vezes solta. Um filme vara de família: primeiro a mãe (Gloria Pires), depois a filha (Cléo Pires).

Besouro (2009, de João Daniel Tikhomiroff)

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Um filme sobre a capoeira parecia uma ótima ideia. Pena que o diretor assistiu “O Tigre e o Dragão” setenta e sete vezes antes de ir trabalhar.

Paraísos Artificiais (2012, Marcos Prado)

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Provavelmente, é uma injustiça incluir esse filma na lista. Até porque seu diretor é um grande talento, responsável pela obra-prima “Estamira”. Mas, como dizia o tio Ben: “Grandes poderes gera grandes responsabilidades”. Se o objetivo era fazer um filme sobre as novas gerações poderia ter sido minimamente crítico, colocando seus valores em perspectiva, e não apenas adulando a garotada, mostrando o quanto são legais e descolados. O tom politicamente correto e moralista estraga um filme que poderia ser um marco no cinema nacional.