Primeiramente abro um parêntese para explicar um conceito fundamental do cinema: filmes nada mais são que fotografias em movimentos. Para ser mais exato, 24 fotografias – ou frames – exibidas por segundo criam uma ilusão de ótica onde as imagens capturadas parecem se mover à uma velocidade semelhante a que capturamos com nossos próprios olhos. Essa ilusão podia ser vista desde o início do século 19, quando invenções como o thaumatrópioe o fenacistoscópio ganharam vida. Graças a elas, cerca de 60 anos depois, nasceu o cinematógrafo, invenção dos famosos irmãos Lumière que deu vida ao cinema que conhecemos atualmente. É por isso que hoje em dia temos o diretor de fotografia – profissional responsável pela captura da cena conforme a visão do diretor, cuidando da iluminação, ângulos e lentes usadas em cena –, e muitos cineastas usam o termo “fotografar” e não “filmar” uma cena.
Bom, nossa história começa quando meu primo-jornalista-cinéfilo, Rafael, comentou sobre um trabalho do curso de pós-graduação – ele cursa Cinema na FAP, em Curitiba – onde deveria comparar duas correntes do cinema, o cinema de fluxo e a mise en scène, e me convidou para ajudar como diretor de fotografia. Por limitações técnicas (e financeiras), sugeri que usássemos o fundamento básico descrito no parágrafo anterior para fazer o filme. Ou seja, faríamos um curta-metragem utilizando apenas fotografias. O que, por mais bizarro que isso possa parecer, não seria uma ideia inédita.
Decidimos então que usaríamos uma câmera fotográfica digital – minha Nikon D300 – que nos permitiria fazer várias fotos em um curto período de tempo (cerca de oito fotos por segundo) e, na pós-produção, criaríamos a ilusão de movimento ao reproduzirmos as fotos em velocidade acelerada. Essa opção foi também a mais interessante para o projeto por duas razões: as fotografias aceleradas criariam um efeito estético que seria pertinente à ideia do roteiro a ser filmado – escrito pelo Rafael – e também pela facilidade de tratamento e criação de efeitos especiais que poderiam vir a ser incluídos no curta.
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Com o conceito visual definido, finalmente chegou a hora de dizer “luz, câmera, ação!”… ou quase. A “filmagem” do curta-metragem definitivamente não foi fácil, mas serviu como um ótimo aprendizado para todos os envolvidos. Por estarmos gravando as imagens numa velocidade abaixo do normal, foi necessária uma enorme dose de paciência do nosso protagonista, pois ele teve que fazer todas as cenas em “câmera lenta” para que no resultado final sua movimentação fosse o mais realista possível, e não acelerada. Muitos takes tiveram que ser repetidos também por causa do equipamento usado: a câmera fazia “apenas” 100 fotos em sequência antes de começar engasgar.  Portanto, tivemos que repetir várias vezes até que toda a ação da sequência fosse realizada nesse período de tempo. Em alguns planos mais longos, porém, decidimos fazer pequenos cortes sutis, com a esperança que passem despercebidos aos espectadores. Para os travellings – quando a câmera acompanha o personagem por um caminho – sofremos um pouco com o foco da câmera, pois tínhamos que manter uma distância constante do ator a fim de deixá-lo focalizado. Mais fácil dito do que feito.
Mas nove horas e 4.500 fotografias depois, estávamos com todas as cenas gravadas e partimos para a pós-produção. Utilizando o Adobe Lightroom, fiz o tratamento de todas as fotos para deixá-las com o tom preto-e-branco e contraste que queríamos e comecei a criar os vídeos de cada cena com o Apple Quicktime Pro. Em seguida, exportamos as cenas para o Adobe Premiere e começamos a editar o filme. Foi nessa hora que encontramos outro pequeno empecilho: logicamente que, como fizemos o curta-metragem com fotografias, não teríamos som algum. Partimos então em busca de efeitos sonoros e trilha para incluirmos e criar a atmosfera que melhor encaixaria com a concepção do filme.
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O resultado final, longe de ter uma qualidade hollywoodiana, ficou condizente com o tempo e equipamentos à nossa disposição, que eram mínimos. Porém, a perseverança e vontade de todos os envolvidos garantiu que essa experiência fosse uma das mais prazerosas.

Fonte: http://atelliefotografia.com.br/recomendamos/curta-metragem-de-ficcao-e-feito-com-mais-de-4-500-fotografias/