• Stan Lee em foto de 2005 (esq.) e Steve Ditko em 1965

    Stan Lee em foto de 2005 (esq.) e Steve Ditko em 1965

Final de abril de 2002, um cinema novo em folha num shopping novo em folha de Los Angeles. Na plateia, imprensa, convidados e centenas de fãs do Homem-Aranha, ansiosos para a primeira exibição do filme de Sam Raimi que, semanas depois, se tornaria um fenômeno.

Começam os créditos e, quando surge “Homem-Aranha criado por Stan Lee e Steve Ditko”, o público explode em aplausos. Nada mais justo. A dupla lançou, na edição de agosto de 1962 da revista “Amazing Fantasy” (o último número, por sinal), o herói que se tornaria uma das criações mais populares da cultura pop. Mas nem sempre foi uma parceria amistosa.

Stan Lee havia se tornado astro com o lançamento de “Quarteto Fantástico” no ano anterior e sua parceria com o desenhista Jack Kirby se tornaria lendária – juntos eles trabalharam em “Thor”, “O Incrível Hulk” e “X-Men”, só para citar alguns. Lee havia pensado no Homem-Aranha e, claro, levou suas ideias a Kirby, que logo traçou seis páginas com o personagem. Lee detestou o resultado: “Muito heroico”, ele disse.

O roteirista então chamou Ditko, com quem já contribuía em diversas histórias de monstros para vários títulos da Atlas Comics, editora que viria a ser a Marvel. Ao contrário dos tipos super-poderosos que saíam do lápis de Kirby, as criações de Ditko eram mais humanas, menos explosivas, perfeitas para o conceito de Lee. Ainda assim, a capa de “Amazing Fantasy” nº 15, a estreia do Aranha nos gibis, terminou desenhada por Jack Kirby, com arte final de Steve Ditko.

Adolescente franzino
O Homem-Aranha não era uma aposta do editor Martin Goodman: ao contrário da nova onda de super-heróis que tomava as bancas, ele era um adolescente franzino, cheio de neuroses e problemas com escola, garotas e dinheiro. Ainda assim, os números de “Amazing Fantasy” foram tão impressionantes que, sete meses depois, o herói ganhou título próprio com “The Amazing Spider-Man”.

Foi o começo de uma parceria entre Stan Lee e Steve Ditko que durou 38 edições. Nesse tempo, tudo que conhecemos sobre o herói foi firmemente estabelecido: seus maiores vilões (Duende Verde, Abutre, Dr. Octopus, Homem de Areia, Electro, Kraven, o Lagarto), sua extensa galeria de coadjuvantes (Tia May, J. Jonah Jameson, Harry Osborn, Flash Thompson, Gwen Stacy) e, o mais importante, sua personalidade.

O estilo fluido do traço de Ditko fez do Aranha um personagem único, diferente de toda a avalanche de super-heróis que a Marvel estava publicando sob o lápis de Stan Lee. E aí que surge a polêmica do crédito. Seguindo o “método Marvel”, e atolado pela quantidade absurda de trabalho, Lee geralmente rascunhava um argumento de uma página e Ditko desenvolvia a história em 22 ou 24 páginas, devolvendo o material para o roteirista que, então, adicionava os diálogos e os recordatórios. A roça era feita por assistentes e os dois mal se falavam.

Daí vem a pergunta que até hoje divide os fãs: quem de fato criou o Homem-Aranha? O homem que bolou seu conceito ou o homem que lhe deu movimento, cor e vida?

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“O Espetacular Homem-Aranha 2” é primeiro filme do herói todo gravado em Nova

Stan Lee e os quadrinhos de super-heróis
Para alimentar a fogueira, Stan Lee sempre teve uma personalidade gigante, o sorriso largo e o estilo de garoto-propaganda que, no mínimo, ajudou a popularizar as histórias em quadrinhos na cultura pop. Mais ainda, ele sempre brigou pelo direito de os criadores de cada história receberem seus créditos: não só roteirista e desenhista, mas também arte finalista, colorista e letrista.

Lee personifica o quadrinho de super-herói moderno e, para o bem e para o mal, termina por eclipsar seus colaboradores. Se Jack Kirby, seu parceiro mais contumaz, conseguiu espaço pelo volume e pela influência inquestionável de seu traço, Steve Ditko, um sujeito tímido, até recluso, mais interessado em sua arte do que nos holofotes, ficou em segundo plano.

Uma das lendas que corre no mundo dos quadrinhos é que Ditko nunca ganhou um centavo pelos paineis originais do Homem-Aranha que ele criou. Pelo contrário, eles formam uma pilha de papel em sua casa, que ele usa como base na hora de recortar novas folhas. Quando questionado se não se importava em estar destruindo arte pela qual fãs pagariam uma fortuna, sua resposta teria sido: “Não quero que ninguém me conheça pelo meu trabalho velho, e sim pelo trabalho mais recente, que é sempre o melhor”.

Ainda hoje, já em seus 87 anos, Ditko continua trabalhando em seu estúdio em Nova York. Ele não dá entrevistas, não autografa seu material, não recebe fãs e não participa de convenções.

Reconhecimento

Com a popularidade global que o Homem-Aranha ganhou no novo século com o sucesso dos filmes, foi natural a atenção maior em cima da dupla Lee e Ditko. Antes de a produção da primeira aventura no cinema começar, Stan Lee publicou uma carta aberta, reconhecendo publicamente que Steve Ditko sempre fora co-criador do Homem-Aranha.

Quando Ditko deixou a arte de “The Amazing Spider-Man”, outro gigante da Marvel, John Romita, assumiu o lápis. Seu traço, mais tradicional, ajudou a popularizar ainda mais o herói. Mas existe algo inexplicável nas 38 edições que Lee e Ditko produziram com o Aranha: a dinâmica, a fluidez, o heroísmo emoldurado por uma qualidade humana que, até hoje, muitos desenhistas de super-heróis não atingem.

Seres superpoderosos são maiores que a vida, e Jack Kirby, John Romita e outros fundadores do estilo Marvel eram perfeitos tradutores disso. Nos desenhos de Ditko, porém, eles se tornavam estranhamente humanos, comuns até. Sua parceria com Stan Lee, apesar de turbulenta, deixou sua marca na história.