Domingos Oliveira tem uma trajetória fora da curva no cinema brasileiro contemporâneo. Intimista na época do cinema político (anos 1960), o carioca Domingos é o que mais se aproxima de uma definição de artista total no cinema contemporâneo – autor, diretor e muitas vezes ator dos próprios filmes, faz um trabalho pessoal e intransferível. E, muitas vezes na contracorrente.
Por exemplo, no final dos anos 60, quando havia um pedido, digamos inconsciente, para que todas as forças evoluídas da nação se colocassem a serviço da causa política, ele dá à luz dois filmes focados na relação homem-mulher – Todas as Mulheres do Mundo (1966) e Edu, Coração de Ouro (1967).
Em ambos, a figura fulgurante de Leila Diniz, protótipo da nova mulher, livre, evoluída, dona do seu corpo e dos seus pensamentos. Que carreira não teria feito Leila, não fosse a morte prematura num acidente de avião em 1972, hein? Como protagonista, Paulo José, então jovem e desde já um dos grandes atores brasileiros, brilhando até hoje. Os dois filmes, de frescor incrível, discutem questões como a fidelidade amorosa ou a abertura para novas experiências com outros parceiros. Tema em voga na época da chamada revolução sexual e, salvo engano, atual até hoje.
De certo modo, esses trabalhos iniciais servem de matriz para o cinema de Domingos mais contemporâneo, em filmes como Amores (1997), Separações (2002), Feminices (2005), Carreiras (2006), Juventude (2008), Todo Mundo tem Problemas Sexuais (2008) e Primeiro Dia de um Ano Qualquer (2012), com o qual concorre, mais uma vez, em Gramado.
Na verdade, Domingos, que é também homem de literatura e de teatro, encontrou uma maneira toda sua de fazer cinema. Uma ferramenta adaptada à sua mão. Filma aquilo que o interessa, com pessoas próximas (sua mulher, Priscila Rozenbaum, especialmente) de modo rápido e barato. Meio a sério, meio de brincadeira, quando todo mundo lançava manuais princípios estéticos (o Dogma 95 dinamarquês, o Dogma Feijoada, do cinema black brasileiro), Domingos também lançou seu movimento. Cunhou a sigla Boaa, que quer dizer, simplesmente, Baixo Orçamento e Alto Astral.
Era um gracejo mas, ao mesmo tempo, um suave tapa de luva de pelica no novo cinema brasileiro, pesado, inflacionado, dependente da aprovação de departamentos de marketing, intervenções de roteiros, etc.
Ao seu jeito e à sua feição, com humor, inteligência e pouca grana, Domingos continuou a filmar o que o interessa. Relacionamentos entre homem e mulher, sim, e por que não? Mas também a maneira contraditória como esses relacionamentos se dão no mundo. Como se modificam em presença da Aids? Como suportam o envelhecimento, como se conciliam com carreiras profissionais cada vez mais exigentes? Qual é o espaço da amizade num mundo cada vez mais competitivo e alienado? E assim por diante. Temas humanos. Sem bombas, sem explosões, sem correrias.
Apenas centrado num dos grandes conflitos humanos, entre seu desejo e sua vontade, como vem mais explícito em Carreiras. A personagem de Priscila tem vontade de fazer sucesso como executiva, mas onde fica seu desejo em todo esse tumulto? Contraditório ser humano, entre o desejo de viver e a vontade de poder, que não escapa ao Domingos Oliveira leitor de Dostoievski e Nietszche.
Soma de cultura e experiência de vida, o cinema de Domingos não encontra maiores problemas para se consolidar como forma. “Jamais tive dúvidas sobre o lugar onde colocar a câmera”, disse ele certa vez numa conversa. Verdade. O uso da câmera como uma caneta familiar pode ser até fruto da intuição de quem é cinéfilo e tem Federico Fellini no altar de suas preferências. Mas o que é a intuição senão o outro nome que damos para aquilo que sabemos fazer, mas não conseguimos definir?
domingos
Fonte: http://bit.ly/16hEaLS