cineasta
Quando se sentou em frente ao microfone da sala de coletivas, o cineasta Eduardo Coutinho, com seu humor habitual, avisou:
— Nunca tenho nada a falar, amanhã isso vai ser um problema.
Daí em diante, passou cinquenta minutos desfiando suas opiniões sobre cinema, televisão, jornalismo e política. O documentarista, que completou 80 anos em 2013, veio participar da Flip para conversar, no sábado, às 12h, com o crítico Eduardo Escorel sobre a sua produção cinematográfica.
A Cosac Naify aproveitou a presença de Coutinho em Paraty para lançar uma edição especial de apenas 200 exemplares de “O olhar no documentário”. O livro é uma espécie de versão reduzida de outro mais abrangente, que será lançado em outubro por ocasião da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Nele, estão reunidos textos de críticos e intelectuais sobre Coutinho, como Ferreira Gullar e João Moreira Salles. A edição também reúne sete críticas que o cineasta escreveu para o Jornal do Brasil nos anos 1970.
Ao comentar sua breve atuação como crítico, que durou de 1973 a 1974, ele disse que — por questões éticas – só analisava filmes e cineastas estrangeiros. Por isso, não poupou a vanguarda francesa de suas opiniões:
— Para mim, tirando dois filmes do Buñuel, toda a vanguarda francesa e o underground americano poderiam ser descartados.
O diretor de “Cabra marcado para morrer” contou que antes de enveredar pelo caminho do cinema, teve uma breve passagem na redação do JB como copydesk e revisor, funções que, para ele, serviam para “arrumar e, muitas vezes, piorar textos dos outros”.
— Essa atividade me deixou um trauma. Acho que há vinte anos não escrevo mais nada, a não ser sinopses e argumentos falsos — disse.
Para Coutinho, as críticas à cultura de massa são inócuas, não levam a lugar algum. Ele ainda criticou Theodor Adorno, teórico da Escola de Frankfurt, e disse ver elitismo por parte de alguns intelectuais.
— Eu posso não gostar de televisão nem de algumas coisas da internet, mas vamos fazer o quê? Jogar fora? Não. É por isso que alguns acadêmicos não conseguem entender o motivo de o povo adorar novela há 30 anos. Por que o brasileiro não pode achar a Carminha maravilhosa? — perguntou, citando a personagem vivida por Adriana Esteves em “Avenida Brasil”.
Coutinho também comentou o atual momento político que o país passa e se disse “analfabeto” em termos de internet, mas afirmou que gostaria de ver vídeos produzidos pelos manifestantes montados por “alguém que pense”. Ele também fez duras críticas aos partidos políticos brasileiros
— Como Darcy Ribeiro dizia, eu gostaria de ser rei por um dia. Extinguiria todos os partidos e só poderiam ser refundados aqueles que se justificassem — polemizou.No fim, falou sobre as adaptações literárias feitas pelo cinema. Para ele, Graciliano Ramos é um caso raro em que as produções adaptadas de sua obra costumam ficar boas, como “Vidas Secas” e “Memórias do Cárcere”, todos adaptados por Nelson Pereira dos Santos.
— Os filmes que o Nelson adaptou são maravilhosos. O Graciliano costuma gerar boas produções. Ao contrário de Machado de Assis, cujas adaptações geralmente ficam ruins — fechou.
Fonte: O Globo, saiba mais em (http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2013)