No último fim de semana (dias 22 e 23 de junho), o Cemec promoveu em São Paulo o curso Hollywood 2–Day Film School com Dov Simens, famoso instrutor de cinema norte-americano. As aulas aconteceram no Novotel Jaraguá, em São Paulo, com patrocínio do banco Santander e apoio da Tela Viva, Revista de Cinema, Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Televisão (ABPITV), Brazilian TV Producers e Almanaque de Cultura Popular.
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Dov dividiu didaticamente sua visão e expertise com um auditório com 200 lugares lotado de alunos vindos de diversas partes do Brasil. Logo no início de sua aula, ele já esclareceu aos desavisados: “Estou aqui para tratar cinema como negócio. Não ensino arte nem talento. Se vocês querem aprender a fazer dinheiro na indústria de cinema, então estão no curso certo”. E seguiu com orientações provocadoras: “Existem dois jeitos de se fazer cinema: o certo, que é fazer o que o sistema te diz, e o errado, que é fazer o que o Dov Simens te diz. E eu te digo: comece seu filme ainda esta semana!”.
Sempre bem humorado, com piadas ensaiadas e estilo clássico de showman, ele falou sobre como fazer a produção de longas metragens com qualidade e baixo orçamento. Segundo ele, é assim que todos devem começar. “Deixe para o seu segundo filme ser um projeto caro. O primeiro tem que ser realista”, afirmou o instrutor.
Com bastante insistência, ele falou também sobre como iniciantes no cinema devem se focar na maneira objetiva e barata de cada processo de desenvolvimento de um filme. Durante quase seis horas ele ensinou técnicas de roteiro, casting, direção, produção e traçou também um comparativo financeiro entre diferentes tipos de equipamento para filmagem.
Cézar Maia, produtor e diretor que veio de Recife (PE) para ver o curso, disse que esse ponto de vista de Dov é interessante por ser muito objetivo. “Ele visa o lucro e mostra que é possível fazer cinema simples e vendável. Tudo depende do seu grau de organização. Enquanto produtor, eu achei ótima essa visão de negócios realmente precisa existir.”
Dov afirmou que seus alunos podem não ganhar o Oscar de direção artística, mas serão lembrados se conseguirem contar uma boa história. “Não se preocupe tanto com a qualidade estética do filme. Faça o melhor que você puder, mas faça. Nem todos os filmes têm as melhores imagens em termos de luz e cores, como por exemplo Juno e Little Miss Sunshine, mas vocês mesmo assim se lembram deles”, disse.
Ele ainda lembrou que para se ter uma boa história é preciso ter talento e, infelizmente, isso não se ensina. Mas explicou que boas histórias geralmente acontecem quando um filme que tem cerca de 60 cenas possui um “filme” próprio dentro de cada uma delas.
Quanto ao roteiro, Dov explicou que para um primeiro filme o enredo deve ser simples, com no máximo três locações e se possível dividido em três atos. Para ele, não podemos aceitar a ideia de roteiristas que trabalham por cerca de dois anos no mesmo projeto. “Vocês têm que gastar no máximo três semanas, apenas três semanas para entregarem pronto um roteiro de 90 páginas!”, enfatizou.
“A gente aqui no Brasil não está muito acostumado a escrever nesse ritmo”, declarou Fernando Guimarães, roteirista que também participou do curso. “Ele nos deu uma perspectiva boa de como se chegar mais rápido ao roteiro final. Vou pôr em prática no meu dia a dia e no meu trabalho o que ele ensinou”, disse.

Opiniões – Dov deixou para o segundo dia do curso a parte da comercialização dos filmes. Falou, comentou, analisou e deu dicas importantes sobre mercado, festivais, marketing e outras formas de distribuição e divulgação de filmes independentes.
Especificamente sobre os festivais internacionais, o instrutor alertou que existem cerca de três mil deles, mas apenas em 20 têm feiras de compras e vendas entre os países. “Se você quer negociar seu filme no exterior é nesses festivais que vocês tem que estar”.
José Eduardo Jordão, produtor executivo que também foi conferir o Hollywood 2-Day Film School, gostou das colocações de Dov. “O produtor brasileiro ainda não busca a distribuição através do festival e é bom ter uma visão de como essa parte funciona nos EUA. O que ele disse de produção também foi útil – é interessante ver a forma como ele gerencia o orçamento, como ele separa cada item. Pude acompanhar e pensar num paralelo com a realidade brasileira”.
Para Mariara Freitas, formada em Audiovisual, o curso de Dov Simens foi exatamente o que precisava. “Serviu como autoajuda para cineastas. Eu já tenho a técnica e a vontade, mas faltava esse empurrão que ele dá. Faltava ver que não precisa ser tão difícil”.
“Ele nos mostrou uma outra visão do cinema, bem diferente da que estamos acostumados no Brasil. Ele vem da cultura onde os filmes acontecem mesmo sem leis de apoio ou incentivos”, declarou Leonardo Curcino, produtor e criador do cineasta.cc, primeiro site de crowdfunding específico para audiovisual no Brasil.
Entre os alunos também estavam o diretor, roteirista e produtor executivo Gustavo Rosa de Moura e a cineasta e apresentadora Marina Person. “Ele falou muita coisa que a gente não sabia. Acho que nós temos que lidar com os dois tipos de posicionamento: com o lado arrogante americano de querer ser o modelo e com o lado arrogante brasileiro de não querer olhar para o modelo deles. As duas posições tem que ser relativizadas. Você não pode aceitar 100% do know-how deles porque a realidade aqui é bem diferente, mas por outro lado você não pode negar tudo dizendo que o Brasil é totalmente diferente e isso não vai funcionar aqui. Nós temos que respeitar porque os americanos fazem isso há muito tempo, com muita freqüência e com muito sucesso. E o Brasil é bastante próximo dos Estados Unidos sobretudo no gosto das pessoas. A cultura audiovisual norte-americana sempre foi muito presente aqui. A dificuldade é saber o que serve para você e que tipo de carreira você quer fazer”, declarou Gustavo.
“O Dov é um cara bem pragmático e dá todo um raio-X  de como fazer um filme. Não só do aspecto de produção, mas toda as partes desde o levantamento de recursos, passando por como organizar uma estrutura de orçamentos e tal até a parte de como comercializar o filme pronto. Acho que ele é muito rápido e tem essa metodologia de não perder tempo. E é bom para ver como funciona essa indústria de filmes lá fora. Dá pra aproveitar muita coisa”, acrescentou Marina.
Diversas vezes, durante a aula, Dov aproveitava para provocar e, de certa forma, puxar a orelha dos cineastas brasileiros: “Vocês fazem novelas fantásticas! Por que têm medo de fazer cinema?! O Brasil faz parte dos BRIC, comecem a agir como uma nação emergente”.
O advogado Fábio Cesnik, sócio do escritório de advocacia especializado na área cultural Cesnik, Quintino & Salinas, também subiu ao palco para falar sobre as novas oportunidades da Lei 12.485 no Brasil, conhecida como a nova Lei da TV Paga.
Após dois longos dias de aula-show, o incansável instrutor de 70 anos, que passou quase o tempo inteiro em pé, ainda declarou, sorridente: “Gostei muito dos brasileiros e de estar em São Paulo. Vocês logo vão ver que acabamos de começar um movimento de filmes independentes no Brasil”.
Fonte: Site Cultura e Mercado, saiba mais em (http://www.culturaemercado.com.br/destaque)