por Luiz Zanin

 

241354536_640

 

 

O leitor, em especial o mais jovem, tem todo o direito de perguntar quem foi Jairo Ferreira (1945-2003), homenageado por uma mostra de filmes no CCBB. Pois bem, Jairo foi um importante crítico de cinema, que trabalhou em diversos veículos da cidade, como o São Paulo Shimbun e a Folha. Além disso, foi cineasta e companheiro de estrada de um grupo de diretores alinhados sob o rótulo nem sempre aceito por eles de “cinema marginal”.

Jairo também escreveu um livro importante chamado Cinema de Invenção, título feliz que define o tipo de filme que ele admirava e praticava. Um anticinema industrial, feito com poucos recursos, irreverente, desbocado e debochado. Um cinema idealmente feito na Boca do Lixo, aquele quadrilátero de ruas vizinhas à Cracolândia. Foi lá que se instalou um dos templos do cinema alternativo numa São Paulo desvairada, e ainda assim mais amena, na qual os cineastas conviviam pacificamente com as garotas de programa e criavam filmes que, vez por outra (porque não era sempre), mostravam uma criatividade autoral incrível. Saíram da Boca filmes como Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, e Lilian M. – Relatório Confidencial, de Carlos Reichenbach.

A mostra Jairo Ferreira, com curadoria de Renato Coelho, traz toda a filmografia do homenageado, a maior parte da qual foi captada em Super-8, num tempo em que a tecnologia digital barata de hoje em dia não existia nem em delírios da ficção científica. Estão lá impressos nesse modesto celuloide, os dois longas da lavra de Jairo, o cult Vampiro da Cinemateca,e o não menos badalado (em círculos restritos) O Insigne-Ficante.Há também os curtas e médias como O Guru e os Guris, Horror Palace Hotel e Metamorfose Ambulante – As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Toth.

 

jairo-ferreira

 

Há também os filmes que compunham o elenco de admirações de Jairo – todos contemplados com artigos no livro Cinema de Invenção. Desde a obra-prima absoluta do cinema brasileiro, Limite (1931), de Mário Peixoto, até O Corpo Ardente (1966), que muitos consideram a melhor contribuição de Walter Hugo Khouri para o cinema brasileiro.

Mas estes são filmes reconhecidos até mesmo pelo cânone e pela crítica mainstream. Não constam, a não ser com muita liberdade, do panteão dos “malditos”, escaninho do cinema que era onde Jairo trabalhava mais à vontade. Nele, não poderiam faltar o emblemático A Margem (1967), de Ozualdo Candeias, filme que, do título à temática, passando pelo estilo, é o manifesto completo de toda uma tendência de época. Assim como Jardim de Guerra (1968), de Neville D’Almeida, antes de sua fase mais comercial.

Junta-se a eles uma penca de outros filmes, típicos representantes do “udigrudi” (expressão debochada devida a Glauber Rocha), tais como A Mulher de Todos (1969), de Rogério Sganzerla, Meteorango Kid – O Herói Intergalático (1969), de André Luis Oliveira, Ritual dos Sádicos (1969), de José Mojica Marins, Gamal, o Delírio do Sexo (1969), de João Batista de Andrade, Nosferatu do Brasil(1971), de Ivan Cardoso, e Sagrada Família(1970), de Sylvio Lanna, entre outros. Alguns títulos surpreendem, por exemplo, A Lira do Delírio(1978), de Walter Lima Jr., diretor mais afinado com o Cinema Novo. Ou o curta Ave (1992), do bem mais jovem Paulo Sacramento, filme aí presente por certo pelo parentesco afetivo do cineasta em seu início de carreira com a estética de escândalo dos “marginais”.

Pois era bem disso que se tratava – chocar. Tentar movimentar, por meio das imagens de impacto, o imaginário de um espectador suposto adormecido. Daí a presença de gritos, sexo, gosma e fluidos em geral, imagens e sons que desafiam a fronteira do bom gosto. São filmes que, de maneira geral, entram em conflito com o Cinema Novo, tido como já um tanto aburguesado depois de sua fase mais aguda e contestadora. Para os cineastas marginais – e para Jairo Ferreira, um ideólogo entre eles –, o Cinema Novo já celebrara o nada nobre pacto com a ditadura, que redundaria no cinemão comercial dos anos 1970 em diante, sob as asas estatais da Embrafilme.

Eram também tempos de AI-5, de ditadura feroz e de uma classe média satisfeita consigo mesma sob a anestesia do “Brasil grande”e da boa maré da economia. Era necessário fazer fumaça e contestá-la. Mas como? Uma frase do protagonista do Bandido da Luz Vermelha, na boca de Paulo Villaça, ficou célebre: “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba”. Divisa da época. Talvez da contracultura, de modo geral. Se o “sistema” é forte demais para ser enfrentado politicamente, cabe miná-lo numa micropolítica do corpo, na imolação de si e das relações sociais, vistas como doentes.

Dessa mistura, que se socorria de várias fontes – Oswald de Andrade, Artaud, Zé Celso, o Tropicalismo, Godard, Buñuel, Sam Fuller e Orson Welles – saíram obras desesperadas, algumas excepcionais. Quem pensa que tudo isso é datado, não avalia a influência que exerce ainda sobre as gerações mais jovens. Rebeldia juvenil é algo que atravessa os tempos e encontra nesses filmes e atitudes uma senha de reconhecimento.