por Rosa Minine ruy-guerra Nascido em Moçambique, no ano de 1931, o grande cineasta Ruy Guerra desde muito jovem se dedica às artes e à politica. Participando dos movimentos pela independência de seu país e realizando pequenos filmes em 8mm, Ruy deu início à sua intensa e profícua atividade intelectual. Deixou a África aos 19 anos, com destino à Europa, residindo por alguns meses em Portugal e depois indo para a França, onde estudou no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos, de Paris e, em 1954, realizou o filme Quand le soleil dort. Veio para o Brasil aos 28 anos, em fins de 1958, radicando-se no país. “É claro que durante todo esse período em que vivo no Brasil, tive saídas e entradas, e fiz alguns filmes no exterior, mas foi aqui que me radiquei. Digo que sou um cineasta brasileiro que nasceu em Moçambique”, diz. Mal chegou e logo foi arregaçando as mangas e tentando produzir filmes. A primeira experiência não foi finalizada e se chamava Cavalo de Oxumaré, um filme sobre candomblé. Mas foi com Os cafajestes, de 63, seu primeiro longa-metragem, que Ruy Guerra começou a ficar conhecido como um dos pioneiros do chamado Cinema Novo, dos anos 60.

Sucesso no Brasil e no exterior

Os fuzis, de 64, teve enorme repercussão e Ruy atribui isso ao fato de, juntamente com Vidas secas, de Nélson Pereira dos Santos e Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Gláuber Rocha, a obra fazer parte de uma trilogia de ouro do Cinema Novo. “Os três surgiram no mesmo momento e marcaram uma época, embora com enfoques completamente diferenciados, pois Vidas secas é mais neo- realista e Deus e o Diabo na Terra do Sol é mítico, enquanto que Os fuzis é mais analítico, de certa forma político”, compara. O filme, entre outros prêmios, venceu o festival de Berlim e no momento está sendo solicitado para exibição na França. “Estão nos pedindo uma cópia para exibir num festival em Paris, mas o único que temos é o original. Estamos negociando”, comenta com orgulho o autor de Estorvo. Prosseguindo sua carreira, em 1970 faz Os deuses e os mortos, também considerado pela crítica como marco do cinema nacional. Em A queda, de 77, Ruy retomou a vida dos personagens de Os fuzis, numa instigante experiência sobre o sofrimento da classe operária do Rio de Janeiro. Em 1975, por ocasião da independência de Moçambique, foi convidado pelo Grupo Político das Forças de Libertação Moçambicana para ajudar a fundar o Instituto de Cinema de Moçambique. “Realizei o primeiro longa-metragem moçambicano, chamado Mueda, memória e massacre, de 79, e uma série de documentários, além de trabalhar nas estruturas de distribuição locais. Ao todo foram dois anos trabalhando por lá”, relata. “Se imitamos os Estados Unidos, estamos caminhando de cavalo para burro” Nos anos 80, fez três filmes com maior preocupação estética: Ópera do malandro, de 85, comédia musical, adaptada da obra de Chico Buarque; A fábula da bela palomera, de 87, filme baseado na obra de Gabriel García Márquez; e Kuarup, de 88, uma das maiores super-produções do cinema brasileiro, baseada no romance homônimo de Antonio Callado.

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Filmando em vários países do mundo, Ruy fez recentemente dois filmes em Portugal: Monsanto, de 99 e Portugal S/A, ainda em finalização, além de outras películas rodadas no México e na França. Entre seus sucessos estão: Stweet hunters, de 69; Operação Búfalo, 78; Um povo nunca morre, 80; La lettre volee, 81; Erendira, 83; Os comprometidos, 84; Talk to me, 84; Obvious child, 90, e Me alquilo para soñar, de 91/92. Praticamente todos os seus filmes foram premiados no Brasil e exterior, vencendo festivais importantes como o de Havana, Berlim e Brasília. Em 1994, o roteiro de Estorvo, de sua autoria — normalmente é roteirista ou co-roteirista dos filmes que dirige —, recebeu um prêmio do European Script Fund, uma das mais prestigiadas entidades do cinema europeu, que avalia os méritos dos projetos apresentados ao Programa Media, de apoio ao cinema da União Européia. para mais: http://www.anovademocracia.com.br/no-7/1223-ruy-guerra-a-autenticidade-do-cinema-brasileiro