Tambores do passado

Em 1971, Jean Rouch aceitou o convite para filmar uma cerimônia de possessão em Simiri, no Níger; era o mesmo vilarejo e o mesmo ritual que ele havia filmado 20 anos antes em “Yenendi, os homens que fazem chover”. Apesar dos esforços do sacerdote e do uso de dois tambores especiais – tourou e bitti -, ao longo de três dias ninguém foi possuído. No quarto dia, depois de horas e horas de espera, Rouch decidiu filmar assim mesmo. Se os espíritos não se manifestavam, ele pelo menos registraria um pouco da bela música daqueles tambores arcaicos, em risco de desaparecimento.
Ligou a câmera e caminhou por entre os participantes até chegar aos tambores. Quando estava a ponto de cortar, as possessões começaram. Assim foi feito Os tambores do passado, curta-metragem em um único plano no qual a própria câmera toma parte da cerimônia e se evidencia como elemento catalisador do ritual. É um ótimo exemplo do que Rouch batizaria de “cine-transe”.